sexta-feira, 26 de junho de 2009

SILVIO BARBATO, UM HOMEM, UM GÊNIO, UMA LUZ.

Publicado no jornal de Brasília

Em meu primeiro dia à frente da Secretaria de Cultura do DF, em meio a minha apresentação diante de equipe tão valorosa, estava Silvio Barbato que, dias antes, anunciara sua saída da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional.

Estava, portanto, prestes a perder um dos maiores ícones da música erudita do Brasil e do mundo, entusiasta pelo romantismo do som da orquestra, do inusitado das experiências dos acordes, dos aplausos. Não perdi tempo: pedi seu autógrafo.

Emocionado, pensando no embate e no enfrentamento que viria, viu-se diante de um Secretário que o homenageava, o que o fez voltar atrás em sua decisão, provavelmente pela expectativa de realizar novas ações com liberdade para criar, para desenvolver sua genialidade, para ousar.

Após acertarmos sua continuidade e participação na Secretaria de Cultura e na Orquestra Sinfônica (impedida por burocracia e tecnocracia até aquele momento) um público de aproximadamente duas mil pessoas o recebeu no palco do Teatro Nacional, ambiente conhecido por ele, pelo Maestro Silvio Barbato, ídolo em Brasília, que arrancava suspiros das jovens e das senhoras, extraindo a admiração, com certo grau de ciúme, dos homens presentes.

Todos imaginavam ser o último espetáculo, a última apresentação, mas ao final, me apresentei ao público e anunciei, com firmeza, que o Maestro do Povo de Brasília ficaria...

Ao longo de minha gestão, desenvolvemos alguns projetos, entre eles a “Orquestra nas Cidades Satélites e no Parque da Cidade”, participação ativa em apresentações para estudantes e a capacitação de jovens com talento, mas, sem oportunidade de estar com uma orquestra se desenvolvendo.

Eu sempre que o encontrava, ficava radiante com seu sorriso, com sua amabilidade, com sua ternura, com seus planos, com os projetos para Brasília, para o Brasil e para o mundo.

Silvio Barbato rompia barreiras, conquistava a todos com a sua presença de espírito e a sua imagem caracterizada pelos seus longos e cacheados cabelos. Sempre perseverante, vibrante com sua batuta, dominava os músicos e a própria música, a partitura era para ele um desfile de alegorias, divertia-se no universo dos instrumentos que o obedecia sem questionar.

Ao escrever este artigo, me emociono, lágrimas correm em meu rosto, lembro dos encontros no Rio de Janeiro, em Ipanema, seu lugar preferido, lembro dos seus projetos, de sua alegria.

Tenho papel e caneta para mais uma vez pedir seu autógrafo, pensando que logo mais estarei com a mesma firmeza anunciando que ele fica, na expectativa de que não seja o último espetáculo, a última apresentação.

Ainda emocionado e consternado, peço que Brasília reconheça o trabalho deste homem, deste gênio que agora descansa na glória de Deus, eternizando sua obra e seu talento.

José Ricardo Marques
Ex-Secretário de Cultura do DF

O ACESSO À CULTURA E O PASSE LIVRE

Artigo publicado no jornal de Brasília

Há muitos anos se discute o acesso à cultura, à formação e à identidade cultural, aos incentivos e providências para que os jovens ,em especial, garantam assentos em cinemas, teatros, shows e espetáculos de todo o gênero.

O assunto é polêmico, e ainda não regulamentado, pois enfrenta divergências de interesses dos produtores, artistas e, obviamente, dos estudantes.

O fato é que através dos diversos debates e informações já se deveria ter um desfecho concreto sobre tema que interfere na economia da chamada “Indústria Criativa” , na educação e formação dos jovens, principalmente da camada com menos poder aquisitivo, vinculados às escolas públicas, e do desenvolvimento cultural, importante para a lapidação do caráter humanístico e da sensibilidade ligada às artes e à cultura.

Objetivamente, uma das soluções seria a definição da meia entrada aos eventos culturais, da contrapartida de produções destinadas às escolas da rede pública de ensino e de instituições não governamentais ligadas ao ensino de jovens carentes.

Hoje o que existe e uma panacéia fictícia, ou melhor, “eu finjo que engano e você finge que acredita”.

Os preços dos ingressos são exorbitantes, 70% do que seria normalmente cobrado pela chamada inteira, concedendo-se desconto de 50%, ou seja, na verdade a meia entrada e a inteira, são absurdos, considerando a renda per capita da maioria dos estados brasileiros, inviabilizando o acesso à cultura, gerando uma crise no setor.

A provável solução seria determinar o uso de cotas em espetáculos e sessões, designando número adequado, de acordo com o tamanho médio das salas disponíveis ou proporcional ao evento para estudantes, mas também, para idosos, portadores de necessidades especiais dentre outras exceções.

No caso dos estudantes, a grande questão é o uso e a “fabricação” das carteiras de estudantes, geradas sem controle e fiscalização, o que dificulta a flexibilidade e a boa vontade dos produtores culturais no país que, sem patrocínio, ficam impedidos de promover seus espetáculos.
De outro lado, o governo, seja municipal, estadual ou federal tem a obrigação constitucional de contribuir, seja com legislação eficaz, seja com fiscalização e intervenção, estabelecendo parâmetros para resolver questão espinhosa e delicada que envolve poder e movimentação econômica de milhões de reais.

Muitas conversas já houve entre as várias instituições ligadas à sociedade civil, empresários, instituições de ensino, mas, até agora não se verificou nenhuma solução prática, ficando tudo como antes.

Com o anúncio do Governo do Distrito Federal em financiar o passe livre para 1,3 milhões de estudantes, quem sabe, não é também momento para dar um desfecho à meia entrada, à regulação do acesso à cultura, garantindo cidadania e dando exemplo ao Brasil. Este é, também, papel da Capital da República, dar exemplo e até ser um laboratório de cidadania e democracia.

José Ricardo Marques
Presidente do Sindicriativa – Sindicato das Indústrias Criativas e Multimídia do DF e Ex Secretário de Cultura do DF

quinta-feira, 18 de junho de 2009

CULTURA


Em 2006, Ricardo Marques assumiu a Secretaria de Cultura do DF, implantando um modelo diferenciado. Era, exatamente, o que o setor cultural necessitava, dado que até então a gestão cultural era pensada apenas para oferecer apoio às manifestações culturais. Utilizando sua experiência empresarial, dinamizou o serviço público, discutindo a cultura como meio de desenvolvimento econômico para a atração de investidores e para a geração de emprego. Ainda que a sua gestão tenha sido curta, Marques levou a cultura da capital aos quatro cantos do Distrito Federal, possibilitando inclusão social, sendo apoiado pelos mais diversos segmentos culturais do DF.

Teve a oportunidade de presidir a 39ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, considerado o mais completo dos últimos dez anos, com a presença de público relevante.Membro do Conselho de Preservação de Brasília (Conpresb), foi relator do projeto que definiu a instalação do Clube do Choro na sua nova sede, e do projeto que autorizou a instalação do data center do Banco do Brasil no Parque Capital Digital do DF.

Interagindo com a Fundação Oscar Niemeyer e trabalhando junto com o arquiteto de Brasília, Ricardo Marques coordenou a abertura do Ano 100 de Niemeyer, ocorrida na inauguração do Complexo Cultural da República, em dezembro de 2006, com a presença do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.Participou no Rio de Janeiro do Fórum de Debates sobre a Cultura Mundial, ao lado do Ministro Gilberto Gil.

Introduziu na cultura brasiliense o conceito de desenvolvimento da indústria criativa e trabalhou na formatação de legislação específica para o incentivo às atividades culturais, além de deixar as bases para a elaboração do PIB da Cultura no DF.

Criou o Sindicriativa, primeiro sindicato da indústria criativa da América Latina, que visa organizar, desenvolver e profissionalizar o setor cultural, inicialmente no DF, e a partir daí ramificar-se em todo o território nacional com a proposta de gerar emprego e renda, visando, também, o crescimento da indústria criativa, que já é a segunda que mais cresce nos Estados Unidos, com percentual aproximadamente em 8% do PIB mundial ao ano.