Publicado no jornal de BrasíliaEm meu primeiro dia à frente da Secretaria de Cultura do DF, em meio a minha apresentação diante de equipe tão valorosa, estava Silvio Barbato que, dias antes, anunciara sua saída da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional.
Estava, portanto, prestes a perder um dos maiores ícones da música erudita do Brasil e do mundo, entusiasta pelo romantismo do som da orquestra, do inusitado das experiências dos acordes, dos aplausos. Não perdi tempo: pedi seu autógrafo.
Emocionado, pensando no embate e no enfrentamento que viria, viu-se diante de um Secretário que o homenageava, o que o fez voltar atrás em sua decisão, provavelmente pela expectativa de realizar novas ações com liberdade para criar, para desenvolver sua genialidade, para ousar.

Após acertarmos sua continuidade e participação na Secretaria de Cultura e na Orquestra Sinfônica (impedida por burocracia e tecnocracia até aquele momento) um público de aproximadamente duas mil pessoas o recebeu no palco do Teatro Nacional, ambiente conhecido por ele, pelo Maestro Silvio Barbato, ídolo em Brasília, que arrancava suspiros das jovens e das senhoras, extraindo a admiração, com certo grau de ciúme, dos homens presentes.
Todos imaginavam ser o último espetáculo, a última apresentação, mas ao final, me apresentei ao público e anunciei, com firmeza, que o Maestro do Povo de Brasília ficaria...
Ao longo de minha gestão, desenvolvemos alguns projetos, entre eles a “Orquestra nas Cidades Satélites e no Parque da Cidade”, participação ativa em apresentações para estudantes e a capacitação de jovens com talento, mas, sem oportunidade de estar com uma orquestra se desenvolvendo.
Eu sempre que o encontrava, ficava radiante com seu sorriso, com sua amabilidade, com sua ternura, com seus planos, com os projetos para Brasília, para o Brasil e para o mundo.
Silvio Barbato rompia barreiras, conquistava a todos com a sua presença de espírito e a sua imagem caracterizada pelos seus longos e cacheados cabelos. Sempre perseverante, vibrante com sua batuta, dominava os músicos e a própria música, a partitura era para ele um desfile de alegorias, divertia-se no universo dos instrumentos que o obedecia sem questionar. Ao escrever este artigo, me emociono, lágrimas correm em meu rosto, lembro dos encontros no Rio de Janeiro, em Ipanema, seu lugar preferido, lembro dos seus projetos, de sua alegria.
Tenho papel e caneta para mais uma vez pedir seu autógrafo, pensando que logo mais estarei com a mesma firmeza anunciando que ele fica, na expectativa de que não seja o último espetáculo, a última apresentação.
Ainda emocionado e consternado, peço que Brasília reconheça o trabalho deste homem, deste gênio que agora descansa na glória de Deus, eternizando sua obra e seu talento.
José Ricardo Marques
Ex-Secretário de Cultura do DF

